Quanto mais rápido foram iniciadas as ações para cuidar de uma crise aguda, menores são as possibilidades de óbito e de sequelas nos pacientes, ressaltam especialistas

De acordo com estudo, é significativo o número de pessoas que apesar de saberem o que é um AVC não sabem como agir diante da ocorrência de um

De acordo com estudo, é significativo o número de pessoas que apesar de saberem o que é um AVC não sabem como agir diante da ocorrência de um

Um sorriso e a atenção ao relógio. Essas duas atitudes podem diminuir as sequelas do acidente vascular cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame, que atinge anualmente 16 milhões de pessoas no mundo, causando seis milhões de óbitos. De acordo com o Ministério da Saúde, o AVC provoca uma morte a cada cinco minutos no Brasil e mata mais do que a Aids, a tuberculose, a malária e a gripe H1N1 juntas: são cerca de 68 mil mortes por ano. Acesse o site oficial da campanha: /www.avc.cfm.org.br

Com o objetivo de ajudar a diminuir essa estatística, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Academia Brasileira de Neurologia (ABNeuro) participam no dia 29 de outubro de campanha sobre o tema. Os especialistas querem chamar a atenção da sociedade para medidas simples, que podem fazer a diferença. Por exemplo, um sorriso torto pode ser sintoma de um derrame e, diante deste sinal, a busca por atendimento rápido, numa corrida contra o relógio, pode fazer a diferença entre a vida e a morte, a saúde plena ou a convivência com sequelas.

Os principais sintomas de um AVC são a paralisia súbita de um lado do corpo, perda de sensibilidade, tontura e dificuldade de visão, fala e compreensão. Se acometido por um ou vários deles, o paciente deve ser submetido a um teste simples: sorrir, levantar os dois braços ao mesmo tempo e falar uma frase simples. “Se metade da boca permanecer imóvel, um dos braços cair e a frase for inaudível, as chances são grandes de que esta pessoa esteja sofrendo um AVC e deve ser encaminhada imediatamente para um hospital”, explica o presidente da Academia Brasileira de Neurologia (ABNeuro), Rubens Gagliardi.

O principal fator de risco para a ocorrência do AVC é a hipertensão arterial. Em seguida, vem a arritmia cardíaca, diabetes, tabagismo, colesterol alto e obesidade. Todos estes são considerados modificáveis. Os não modificáveis são a idade, a raça e a herança genética. Pessoas maiores de 55 anos e negras são mais propensas, por exemplo, a ter um AVC.

“É preciso alertar que a maioria dos AVC ocorre por fatores modificáveis. Uma alimentação inadequada, com muito sal e açúcar, aliada ao sedentarismo e à obesidade, são hábitos que propiciam o surgimento do AVC”, afirma o neurologista Hideraldo Cabeça, representante do Pará no Conselho Federal de Medicina (CFM). “A prevenção é o melhor caminho para contermos a doença”, completa Rubens Gagliardi.

Dois tipos, os mesmos sintomas – Há dois tipos de AVC e cada um requer um tratamento específico. O mais comum, que responde por 85% dos casos, é o AVC isquêmico (quando há entupimento da artéria por um coágulo). O outro é o hemorrágico, presente na ruptura de um vaso sanguíneo. Em ambos, a parte do cérebro afetada não recebe o oxigênio necessário e neurônios começam a morrer. Os sintomas também são os mesmos.

Chegando ao hospital, o paciente deve ser submetido a exames clínicos e de imagem, que mostrará a localização, a extensão e o tipo do AVC. “Não podemos iniciar nenhum tratamento específico sem a realização de uma tomografia do crânio”, explica Rubens Gagliardi. O tratamento dependerá do tipo de AVC: enquanto o isquêmico requer a dissolução do coágulo com remédios trombolíticos; no hemorrágico, esta conduta é contraindicada.

Na maioria dos casos, o AVC deixa sequelas. As principais consequências são a diminuição de força na metade do corpo − que ocorre em 85% dos casos −, dificuldade para falar e depressão. Também pode ocorrer incontinência urinária e comprometimento da sensibilidade de extremidades do corpo. Há AVCs mais leves, nos quais os sintomas são quase imperceptíveis, o que leva o paciente a não procurar atendimento médico. Essa atitude é aponta pelos especialistas como um erro.
“É importante procurar tratamento, pois o paciente pode sofrer outro AVC mais forte em decorrência do que não recebeu tratamento”, afirma o neurologista Marcel Simis, médico e pesquisador do Instituto de Medicina Física e de Reabilitação da USP. “Todo paciente de AVC deve receber tratamento”, reforça.

Olho no relógio – Se a pessoa realizar o teste do sorriso e a boca entorta, deve começar uma corrida contra o tempo. A partir dos primeiros sintomas, o ideal é que o tratamento seja iniciado em até quatro horas e meia para que as chances de recuperação sejam maiores. “Tempo é cérebro. Quanto mais demorar o início do tratamento, mais a doença progride e produz maior lesão no cérebro do paciente”, explica o neurologista Hideraldo Cabeça, representante do Pará no Conselho Federal de Medicina (CFM).

Em situações assim, quando há fortes indícios de que esteja passando por um AVC, o paciente deve avisar a pessoa mais próxima, que precisa chamar imediatamente o Samu, que deverá conduzi-lo a um hospital ou unidade de pronto-atendimento habilitado para receber pacientes com AVC. O ideal é esperar a ambulância, mas podem ser usados outros meios, caso eles permitam que o paciente chegue mais rápido ao hospital.

“A janela é de até quatro horas e meia. Nesse período, o medicamento já deve estar correndo nas veias, mas se o atendimento for feito nos primeiros 30 minutos, na fase super aguda, maiores as chances de recuperação”, enfatiza Rubens Gagliardi, presidente da ABNeuro. Depois desse tempo, o médico ainda tem alguns instrumentos, porém de menor eficácia, como o uso de cateter, de neuroprotetores ou de antiagregantes plaquetários. “Mas devemos ter sempre em mente que nesses casos os resultados serão inferiores”, afirma Gagliardi.

Quanto maior a demora, maior a probabilidade de que o paciente fique com alguma sequela e fique incapacitado para o trabalho ou outras atividades. “Sempre podemos fazer alguma coisa para melhorar a qualidade de vida do paciente, mas quanto maior a demora na realização do primeiro atendimento, menor o alcance da medicina”, alerta Marcel Simis.

A importância da prevenção – No Brasil, uma menor preocupação com a prevenção ao AVC tem impedido uma maior queda no número de casos deste tipo de problema. Essa realidade vai na contramão da tendência mundial. Para Rubens Gagliardi, a dificuldade no País decorre da não inclusão dos cuidados preventivos ao AVC como parte da rotina, individual e coletiva.

Para se ter uma idéia, a falta de foco na prevenção tem feito com que a performance brasileira seja bem inferior ao que ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos. Estudo realizado na universidade americana John Hopkins, divulgado no fim de 2014, mostra que o número de pessoas que sofreram um derrame pela primeira vez nos EUA caiu 50%, entre 1987 e 2011. Em relação às mortes subsequentes ao AVC, a queda foi de 40%.

No Brasil, entre 2000 a 2009, o comportamento, apesar de seguir a tendência de queda, se mantém bem mais discreto. Por aqui, a redução ficou em 14,99%. O dado faz parte do estudo “Análise da Tendência da Mortalidade por AVC no Brasil no século XXI”, produzido por Célia Regina Garritado e por outros pesquisadores.

Perfil epidemiológico – Considerada doença de idosos, o AVC tem atingido cada vez mais os jovens. Dados do Ministério da Saúde mostram que 62 mil pessoas abaixo dos 45 anos morreram no Brasil – entre os anos 2000 e 2010 – devido ao AVC. Em 2012, quatro mil pessoas entre 15 e 34 anos foram internadas no País por causa do problema. O colesterol alto, a hipertensão, a obesidade e o sedentarismo entre os jovens também devem ser considerados como fatores que têm aumentado o número de AVC entre os jovens.

Por outro lado, segundo o neurologista Marcel Simis, deve-se levar em consideração que o AVC em pacientes jovens muitas vezes decorre de causas diferentes dos idosos, como alterações cardíacas congênitas, predisposições genéticas e traumas na artéria do pescoço.

De acordo com a assessoria da Rede Sarah, uma das maiores do País especializada na reabilitação de pessoas com problemas de locomoção, aumentou o número de pacientes com menos de 45 anos que têm procurado a instituição para a realização de tratamento neurológico em decorrência do AVC. No ano passado, os hospitais da Rede realizaram 3.237 internações do tipo, num universo de 17.830. Desses atendimentos, muitos foram realizados em pacientes com menos de 45 anos.
Além de dificultar atividades diárias do paciente, o AVC também tem provocado perdas no mundo do trabalho. De acordo com a OMS, as Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT), nas quais o AVC está incluído, são responsáveis por 66% dos anos perdidos de vida produtiva (DALY), indicador que mede o quanto os indivíduos deixam de trabalhar por conta de doenças. Os outros responsáveis são as doenças infecciosas (23,5%) e causas externas (10,2%).

Principais sintomas da fase aguda do AVC

– Diminuição ou perda súbita da força na face, braço ou perna de um lado do corpo;
– Sensação de formigamento na face, braço ou perna de um lado do corpo;
– Perda súbita de visão em um olho ou nos dois olhos; – Alteração aguda da fala, incluindo dificuldade para articular, expressar ou para compreender a linguagem;
– Instabilidade, vertigem súbita intensa e desequilíbrio associado a náuseas ou vômitos.

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