Marcos Lima de Freitas
Presidente do Conselho Regional de Medicina do RN – CREMERN

A partir das publicações de Hipócrates, considerado por muitos o “pai da Medicina”, os problemas de saúde passaram e ser tratados como uma ciência do homem em benefício do próximo. Até então ocupavam o campo das superstições e mitos. Apesar deste marco da antiguidade, onde a observação científica passou a fazer parte do cuidado com a saúde, apenas no século passado o paciente considerado grave ou em situação crítica, passou a ser observado de forma intensiva por uma equipe multidisciplinar coordenada pelo médico. Essa condição de assistência demonstrou uma imediata redução na mortalidade destes pacientes. A evolução científica trouxe mais informações e esse cuidado adquiriu um enorme protagonismo na assistência à saúde, ampliando a sobrevida daqueles que antes eram considerados casos sem expectativa. A evolução tecnológica acrescentou elementos que permitiram uma melhor monitorização e assistência destes pacientes ampliando ainda mais essa expectativa. Sem sombra de dúvidas, o advento do suporte avançado à vida em ambiente adequado, com a presença de uma equipe qualificada, tem obtido resultados que colocam a Unidade de Terapia Intensiva em posição de destaque com relação ao aumento na longevidade da população mundial verificado no último meio século.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) preconiza a necessidade de um a três leitos de UTI para cada 10.000 habitantes. A população do nosso Estado está bem próxima dos 3.500.000 habitantes necessitando de 350 a 1050 leitos de UTI. Temos um total aproximado de 578 leitos de UTI dentre os quais, 256 estão disponibilizados para a assistência privada com um índice aproximado de 3,41 leitos/10.000 usuários de planos de saúde, enquanto que 322 estão disponíveis para toda a população e em especial para os usuários do SUS com um índice abaixo do preconizado sendo 0,94 leitos/10.000 habitantes. Essa oscilação de um a três leitos para cada 10.000 habitantes estará na dependência de variáveis como índice de violência urbana, controle ou descontrole de epidemias e cuidados ou desleixo com a assistência primária, responsável pelo diagnóstico e tratamento dos fatores de risco. Sendo assim, nossa necessidade está mais próxima dos 1050 leitos. Concordam?

Levantamento realizado pelo Conselho Federal de Medicina evidenciouinsuficiência de leitos na maioria dos estados, além de uma má distribuição desses leitos, concentrados nas capitais. Em resumo, temos mais leitos disponíveis para a saúde suplementar e localizados nas capitais, o que leva a um imenso vazio assistencial para a maior parte da população, comprovado pelo aumento nas demandas judiciais por leito de UTI e pelas fiscalizações do CREMERN que invariavelmente flagra dezenas de pacientes, mal acomodados, aguardando leitos de UTI no nosso principal hospital e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Por que UTI? A UTI não é a “antessala da morte” como dizia um velho ditado. A UTI é o lugar onde se mantem a estabilidade vital do indivíduo enquanto ele se recupera da causa que o levou a situação crítica. São pacientes portadores de quadros reversíveis e que a permanência ou não em ambiente de UTI definirá o seu prognóstico. Quanto maior o tempo de espera para ter acesso ao leito de UTI, pior será o prognóstico, com aumento no risco de mortalidade. Quanto maior a espera, maior será o tempo de permanência no leito de UTI, com consequente aumento nos custos.

Na condição de instituição fiscalizadora da prática médica, o CREMERN entende que a insuficiência de leitos de UTI priva o indivíduo de uma assistência minimamente adequada pondo em risco sua vida e comprometendo a atuação profissional, na medida em que o médico passa a ser o elo, até certo ponto frágil, entre o paciente crítico desassistido e o seu entorno. Estamos utilizando as prerrogativas da instituição na busca pela ampliação de leitos de UTI no nosso Estado. Seguiremos lutando pela vida e pelo exercício digno da profissão.

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